
São tristes, os silenciosos cemitérios que se
levantam à beira dos caminhos, nos sertões
goianos. A gente vai viajando e ao perfazer
uma curva, dá com o descampado onde se ergue
o punhado de cruzes. Cruzes toscas, lavradas
a facão. Ora grandes. Ora pequenas.
Os braços, nus. Sem qualquer nome, sem nenhuma
data. Sem aquelas frases sentimentais dos
cemitérios - o sertanejo, se escreve, não tem
tempo para tais requintes... E se enfileiram,
sem ordem, seguindo as conveniências dos que
trouxeram o morto. Ao centro, as tumbas e
cruzes, o cruzeiro enorme, talhado com mais
capricho, em cujo pé as mulheres rezam.
Pedindo chuvas.
Entre as sepulturas, rasas, desamparadas,
engulidas pelo mato, as flores sertanejas se
abrem ao sol. São flores singelas. Cravos de
defunto. Jacintos. Viçosas, graças à
fertilidade do solo, lembram ao viajante um
pensamento de carinho pelos que ali descansam.
Ali descansam os homens que cultivaram a terra.
Que passaram a vida miseravelmente, sujeitos
a trabalhar apenas para comer. Explorados
todo dia. São as suas mulheres que ali descansam
também. Morreram de parto, de apendicite, de
cólicas. Porque, no campo, não há postos de
saúde; nem assistência médica, de quando em
quando, pelo menos. Estão, naqueles túmulos
menores os seus filhos. Não resistiram, por
falta de remédios, às desinterias, ao sarampo,
à coqueluche, às diarréias.
Aquelas cruzes, indicam vidas que se
extinguiram prematuramente.
Qualquer cemitério é triste. Mas nos cemitérios
das cidades a tristeza é relativa. O nosso
parente, que lá está, morreu depois de
receber os cuidados de excelentes médicos.
Depois de ser operado. Depois de confessar
e comungar.
Na zona rural, a ausência de tudo isso,
entristece profundamente os cemitérios.
Vê-los, causa dó. Revolta.
Descaso do Estado, dos Legisladores.
"Do livro de ANA, de Ursulino Leão,
(o POPULAR). P. 60"