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quarta-feira, 8 de outubro de 2008

FAMÍLIA POBRE E HUMILDE


Imagens, Mensagens, Frases e Vídeos - Bonecas - Orkut




Éramos uma família pobre, humilde e honesta. Papai era sapateiro,
fazia chinelos, sapatos, botinas; pregava as correias
dispencadas dos chinelos das mulheres da currutela e das
fazendas vizinhas.
Lá no interior o linguajar era bastante caipira; diziam:
"cadê o estrupício do Chico Pelanca";
"tô cum cafubira";
"o Pedro Tatu arrumou a pinguela dismantelada";
"tô aperreado dimais";
"Constância, traz a candeia";
"fiz o negócio na bistunta";
"o tatu tafuiou na toca";
"a precata do Zé Patrício rebentou";
"o mascate vende bugiganga e baboseiras";
"Conceição deu estrimilique";
"Maria Astréia é turrona".
E assim por diante.

Como não havia energia, as pessoas sentavam-se nos banquinhos
ou tamboretes, nas portas das salas para papear com os
vizinhos. Enquanto isso, nós os filhos deitávamos a cabeça
nos colos das mães, para a cata de piolhos e lêndeas, Era raro
uma criança não pegar piolhos na escola.
Ainda recordando que papai plantou um fumal, e na colheita
reuniam homens e mulheres para prepararem os rolos de fumo;
e as mulheres cantarolavam: "Eu tava na peneira, eu tava
penerano, eu tava no namoro, eu tava namorano".
"A marvada da pínga que eu me atrapaio"...
Assim o tempo ía passando.

***MINHA HISTÓRIA: Ana Maria Gonçalves***

terça-feira, 7 de outubro de 2008

MY FRIEND


-Cinco mais seis, - onze!!!
-Sobe quanto! - Ummmm!!!
-Sete para seis! - Não dáááá!!!
-O que eu faço! - Toma emprestado!!!...

Cabeceira do Rio do Peixe. O Grupo Escolar sozinho plantado
no meio do mato. O local fora cedido pelo fazendeiro, para
que a prefeitura construísse o educandário.
Prédio já antigo, janelas meio descanhotadas e paredes
esburacadas por fora, mordiscadas pelos dentes roedores
dos cavalos e das éguas dos vizinhos que alí faziam recreio
à procura de sal.
Goteirava. Tempo de chuva pegada era um deus-nos-acuda. A
gurizada sofria horrores. Sei lá se sofria, menino importa
lá com essas coisas! Não havia quem desse venção na tapagem
das goteiras, pois os estilingues dos marmanjos não davam
trégua. O professor bem que danava, ameaçava de castigo,
chegava a pôr os mais danados ajoelhados em cima de grãos
de milho com os braços abertos. Mas no que descuidava um
pouquinho a chuva chegava, vazava nos buracos das telhas
e molhava todo mundo. Era uma farra.

Professor era um só, para atender desde o prezinho até o
quarto ano. Enquanto a turma do fundo da sala recitava
em voz alta o bê-a-bá, bê-é-bé, bê-i-bi..., outro grupo
copiava a lição da cartilha toda esmolambada; outro ainda
escrevia no quadro-negro desbotado e rachado as operações
aritméticas elementares.

O mestre ía e vinha de bicicleta, pedalando morro a cima
ou apreciando o doce ventinho batendo na maçã do rosto
morro a baixo. Morava meio longe, distante uns dois
quilômetros. Chuva ou sol e a jornada se repetia anos
e anos seguidos.
Jamais reclamava. Não via motivos. Porque reclamar, se
aquela era a vida que havia pedido a Deus! Finalmente,
aposentou-se. O estresse da sala de aula acumulado ao
longo dos anos, como a insistente gota d`água que mesmo
na rotina preguiçosa transborda o recipiente, fê-lo
envelhecer precocemente.
O velho professor nunca pôde possuir um automóvel. Nem
de segunda mão. O dinheiro do mês era minguado, mal
dava para comprar o arroz, o feijão e alguma mistura
a mais para garantir o sustento da família.
A descendência aumentava a cada ano.
Mesmo assim era feliz. Enchia-se de satisfação na sua
bicicleta, rodando para cima e para baixo, sorrindo e
cumprimentando a todos e chamando-os de "My friend",
exibindo no peito a garbosa camisa do Vasco da Gama,
seu time preferido. Feliz principalmente porque
havia comprado bicicleta nova, a décima sétima de todo
o decorrer de sua existência. Achava-se um sortudo.

"Do livro Causos e Incautos - contos - , de
Elson Gonçalves de Oliveira, p.67 e 68"

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

NECESSITO DOS MEUS DIREITOS


Imagens, Mensagens, Frases e Vídeos - Crianças - Orkut




Interceda meu Pai!
Senhores constituintes, eu sou a Valdete com apenas oito
anos de idade, uma das crianças que clama seus direitos.
Olha, não tenho oportunidades e nem facilidades de
desenvolver-me fisicamente, porque falta-me o alimento.
Mentalmente, porque falta tudo em casa, e sou muito pequena
para refletir tudo isso. A moral em minha casa está acabando,
papai devido as dificuldades que enfrenta, bebe muito, e
assim chega oferecer mamãe aos amigos dele que estão
embriagados.

Estou vagando sem direção, não quero que isso aconteça,
amo os dois, tenho medo da separação.

Senhores constituintes, desde o meu nascimento, tenho
como direito de chamar-me de Valdete.
Só que estou triste, porque sou da favela e as crianças
sociais riem no meu rosto dizendo: Valdete canivete,
pobrete. Olhe nos meus olhos, são tristonhos, estou
terrivelmente doente. Só que não preciso de remédio
para curar-me; preciso de compreensão e dos meus
direitos.

Como já disse, moro numa favela, meu barraco não tem
paredes completas. O teto é coberto por lona toda
furada e emendada com sacos plásticos.
As paredes também são feitas com sacolas plásticas
colhidas no lixão.
Sei que se continuar desse jeito, não terei muita vida
pela frente. E meu irmãozinho, o João, com um aninho!
terá sobrevivência!

Meu Deus, não quero ser chamada de Valdete canivete, e
nem o João de babão. Só queremos amor, compreensão,
respeito, alimento e assistência.
Sejam justos senhores constituintes!

***Ana Maria Gonçalves***

sábado, 4 de outubro de 2008

O MENINO E O PADRE


Um padre andava pelo sertão, e como estava com muita
sede, aproximou-se duma cabana e chamou por alguém de
dentro. Veio então lhe atender um menino muito mirrado.
- Bom dia meu filho, você não tem por aí uma aguinha
pro padre!
- Água tem não senhor, aqui só tem um pote cheio de
garapa de açúcar! Se o senhor quiser... - disse o menino.
- Serve, vá buscar. - Pediu-lhe o padre.

E o menino trouxe a garapa dentro de uma cabaça. O padre
bebeu bastante e o menino ofereceu mais. Meio desconfiado,
mas como estava com muita sede o padre aceitou.
Depois de beber, o padre curioso perguntou ao menino:
- Me diga uma coisa, sua mãe não vai brigar com você por
causa dessa garapa!
Briga não senhor. Ela não quer mais essa garapa, porque
tinha uma barata morta dentro do pote.

Surpreso e revoltado, o padre atira a cabaça no chão e
esta quebra-se em mil pedaços. E furioso ele exclama.
- Moleque danado, porque não me avisou antes!
O menino olhou desesperado para o padre, e então disse
em tom de lamento:
- Agora sim eu vou levar uma surra das grandes; o senhor
acaba de quebrar a cabacinha de vovó fazer xixi dentro!

"NOTA: Conto regional do nordeste, muito conhecido em
quase todas as cidades do interior de Pernambuco ao
Maranhão. Origem desconhecida."

http:||www.sitededicas.com.br

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

EM BUSCA DO GRANDE SURUBIM


Era a primeira vez em quase 30 anos que eu interrompia as
obrigações cotidianas, sem férias, sem feriadão, e rumava
para uma aventura de pesca. Me deu vontade de dizer, pelo
lirismo da palavra, que saíra sem destino. Mas não era sem
destino. Porque quem planejou a viagem foi meu amigo Carlos
Magalhães, diretor aposentado de multinacional, que ainda
leva os rígidos princípios do trabalho para a organização
das pescarias.

Saímos de Goiânia, numa bela madrugada de quinta-feira, numa
caminhonete do próprio Carlos, preparada para viagens de pesca,
que ele chama carinhosamente de Suruana. Éramos seis.
Deveríamos chegar ao mesmo dia a Dourados, onde moram Magal
e Tiago, respectivamente filhos do Tião e do Carlos, e exercem
a medicina. Confesso que, pela falta de hábito de sair assim,
fui com um certo peso de consciência por estar deixando
para trás minhas obrigações e minha mulher, pois a gente
sempre viajou junto. Mas a pescaria era só pra homens. Com
a conversa fluindo legal, a paisagem se renovando a cada
minuto, em pouco tempo se esvaeceram meus sentimentos negativos.

De Dourados a gente daria uma chegadinha a Pablo Juan Cabalero,
no Paraguai, para comprar os petrechos de pesca: varas, linhas,
carretilhas, molinetes, iscas artificiais etc.
Depois de dois dias confortavelmente acolhidos pelo Thiago e
pelo Magal em Dourados e duas viagens ao Paraguai, rumamos,
agora em dois carros, para o Pantanal, onde deveríamos nos
juntar a quatro outros camaradas que viriam de Luz, em Minas,
trazendo um carregamento de cerveja e de minhocuçus.

O dia passou sem a gente ver. Era tanta paisagem deslumbrante,
com as caraíbas e os mulunguns de brejo florindo fartamente,
com as garças voando feito guardanapo ao vento, os tuiuiús em
bando, os jacarés em manada se esquentando ao sol, que o dia
passou mais depressa que o esperado.

Ao findar do dia chegamos a Albuquerque, um paraíso pesqueiro
no Rio Paraguai, perto da Bolívia, logo abaixo da foz do Rio
Miranda.
Tivemos recepção de nobreza na pousada-palafita do Gordo (que
é bem magrinho), coadjuvado pelo careca (detentor de uma juba
farta). O tio Zé e sua turma já estava no mundo, à cata do
grande surubim. Na verdade o fetiche de todo pescador é
pescar um surubim acima de um metro.

Após seis dias subindo e descendo freneticamente o rio, com
guias locais, como se pescar fosse a salvação do mundo, era
a hora de fazer as malas e retornar às obrigações cotidianas.
Ninguém pôs as mãos no grande surubim, que eu saiba. Mas
ele nos animou todos esses dias. E é bem capaz que, pro
ano, a gente faça outra expedição, e saia fagueiramente
em busca do tal grande surubim do Rio Paraguai.

"Cronista: Edival Lourenço"

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

VERMES E ECLÍPSES



Me ofereceu o copo de vinho, contorcendo sensualmente o
corpo, cabeça encostada nos meus joelhos. Recusei. Cansado,
beber ficaria a nocaute. Praça cheia, conversas, reggae e
muito calor.
- Eu tô no subterrâneo. Na terra dos vermes. Não é legal!
Disse que sim. "Subterrâneos da Liberdade", sem entender
porque Jorge Amado veio baixar nessa velha praça
Universitária de guerra.
- Você já viveu no esgoto! É uma sensação indescritível!
- É, eu andei algumas vezes...
Me veio à memória o tempo de criança, quando, juntamente
com amigos, entrávamos em boca-de-lobo próxima à igreja
católica da Vila Redenção, e, descíamos pelos tubos de
águas pluviais até desembocar perto da nascente do córrego
Botafogo. Era uma travessia horrível de 500 metros. O ar
quente e fétido, quase sem oxigênio, a sensação era de um
percurso bem maior. Mas éramos aventureiros. A maior
recompensa era respirar o ar puro da mata, quando saíamos
da tubulação. A sensação de medo, era substituída por um
arfar profundo e expressão de poder. "Os vermes é que sabem
viver...no esgoto", concluí.
- Sara repetiu, eles é que são felizes...

Claro que falava no sentido figurado. Sara curtia a noite
junto aos amigos, bebendo vinho, ouvindo, cantando e dançando
reggae. Disse estar feliz pelo nosso reencontro. Ela era
naquela noite de eclípse total da lua, a última do século.
Eu, um estranho verme, cansado de um dia exaustivo de
trabalho, deitei-me num banco de concreto e fiquei
saboreando o eclípse, numa viagem particular. A lua foi
coberta pela sombra da terra. Sara , deitada com a cabeça
no meu colo, suspirou com satisfação.
Dois vermes, de subterrâneos distintos, enroscados, sob
um luar tênue, opaco, embriagados de uma lucidez duvidosa,
lutavam para estar em sincronia com os seus momentos.

"Do livro, Enquanto Isso... crônicas e contos,
de Osair Manassan, p.91,92e 93"

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO


Era ele que erguia casas onde antes só havia chão. Como
um pássaro sem asas ele subia com as casas que lhe
brotavam da mão. Mas tudo desconhecia da sua missão:
Não sabia, por exemplo que a casa de um homem é um templo
sem religião, como tampouco sabia que a casa que ele fazia
sendo a sua liberdade, era a sua escravidão.
De fato, como podia um operário em construção compreender
porque um tijolo valia mais do que um pão! Tijolos ele
empilhava com pá, cimento e esquadria, quanto ao pão, ele
o comia... Mas fosse comer tijolo!

E assim o operário ía com suor e com cimento erguendo uma
casa aqui, adiante um apartamento, além uma igreja, à frente
um quartel e uma prisão: prisão de que sofreria não fosse,
eventualmente um operário em construção.
Mas ele desconhecia esse fato extraordinário: que o operário
faz a coisa e a coisa faz o operário. De forma que, certo
dia à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma
súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela mesa
-garrafa, prato, facão - era ele quem os fazia, ele, um humilde
operário em construção. Olhou em torno: gamela, banco, enxerga,
caldeirão, vidro, parede, janela, casa, cidade, nação! Tudo
o que existia era ele quem o fazia, ele, um humilde operário
que sabia exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento não sabereis nunca o quanto aquele
humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia
que ele mesmo levantara, um mundo onde nascia, de que sequer
suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, rude
mão, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de
que não havia no mundo coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal
sua construção, cresceu também seu coração. Ele não cresceu
em vão, pois além do que sabia - exercer a profissão - o
operário adquiriu uma nova dimensão.

E um fato novo se viu que a todos admirava: o que o operário
dizia, outro operário escutava. Foi aí que ele começou a
dizer não, porque sempre dizia sim. E aprendeu a notar coisas
a que não dava atenção: notou que sua marmita era o prato
do patrão, que sua cerveja preta era o uísque do patrão,
que seu macacão de zuarte era o terno do patrão, que o
casebre onde morava era a mansão do patrão, que seus dois
pés andarilhos eram as rodas do patrão, que a dureza do seu
dia era a noite do patrão. Que sua imensa fadiga era amiga
do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte na sua resolução.

"""Vinícius de Moraes"""